O relato do meu VBAC (Vaginal Birth After
Cesarean - Parto Normal Após Cesárea) começa muito antes de eu desejar ser
mãe.
Tenho 29 anos, sou filha de um casal
separado, cuja união tumultuada gerou duas filhas. A minha irmã tem 16 anos.
Aos 19 anos, minha mãe engravidou sem
querer e aos 20 dela, eu nasci. Foi parto normal e minha mãe sempre relata que
quando chegou ao hospital, quis ir ao banheiro, e quando a enfermeira a viu,
mandou-a direto para a sala de parto, caso contrário eu nasceria numa privada!
13 anos após meu nascimento, minha irmã
nasceu, também de parto normal. E minha mãe conta que passou a madrugada
inteira com contrações e quando não agüentava mais, chamou meu pai e foram a pé
para o hospital. À época, meu pai e eu morávamos a uma quadra do hospital, eu
fiquei em casa dormindo na companhia de uma amiga e, às 6h, minha mãe deu à luz
a minha irmã. Devem achar estranho eu dizer “meu pai e eu morávamos...”, é que
meu pai era separado de minha mãe, mas ela, sozinha, planejou a gravidez, e meu
pai foi pai de novo, mesmo os dois vivendo separados, inclusive em cidades
diferentes... Sabe como é... quando a pessoa gosta, planeja e faz loucuras...
Não sei se o nome disso é amor, mas o fato é que minha irmã veio ao mundo.
A partir daí, o tempo foi passando.
Conversas sobre bebês, crianças, partos, sempre surgem nas famílias, na minha
não foi diferente. Minha mãe tem mais duas irmãs, e ambas fizeram cesarianas.
Mas minha mãe sempre gritou aos quatro ventos que mãe mesmo é aquela pare a criança
de parto normal. Eu discordo dessa opinião dela e sempre achei desrespeitosa a
forma como ela manifestava seu ponto de vista, pois para ela não interessava as
circunstâncias que levaram a mulher a fazer a cesariana, o que vale mesmo é ser
mãe de parto normal. Bom... Parir ou não é importante, hoje eu sei, mas não é a
forma como o bebê vem ao mundo que determina se a mulher será boa mãe, até
porque há mulheres que não parem, adotam, e são até mais mães do que muitas que
trazem seus bebês no ventre.
Enfim... em 2011, após planejamento, meu
marido e eu engravidamos. A Lívia estava a caminho.
Iniciei o curso de Gestantes e Casais
Grávidos do HU, participei de palestras, li livros, artigos, comentários,
blogs, sites, comentários e tudo o mais sobre o mundo da gravidez e
maternidade... e eu pensava que conhecia o suficiente sobre parto normal e
cesariana, fazendo da minha decisão de PN ser a mais coerente. Eu dizia que
faria PN, mas que a cesariana seria uma opção em último caso. E o que
significava “último caso”? Não sabia dizer e, hoje, ainda penso que não sei o
suficiente.
Na madrugada de 09 de junho de 2012, pela
1h, senti que havia algo estranho, pois já não conseguira pregar o olho desde
que deitara na cama. As contrações iniciaram, mesmo irregulares, e eu comecei a
monitorá-las. Pelas 4h, quando já estavam mais intensas, acordei meu marido e
falei que era necessário irmos para a maternidade. Pegamos a mala da Lívia,
pronta há algumas semanas, arrumamos minhas coisas e fomos. A uma quadra da
maternidade, a bolsa estourou e molhou um pouco o banco do carro. Esta era uma
preocupação: a bolsa estourar e molhar minha cama, inutilizar o colchão, por
isso embaixo do lençol havia várias camadas para evitar a molhaçada. Chegando
no Ilha Hospital e Maternidade, fui atendida pela médica plantonista, Halana,
que fez o exame de toque e constatou 4 cm de dilatação. Fui internada, e o TP
continuou a evoluir. A médica entrou no TP comigo, me ajudava na respiração,
nas posições menos desconfortáveis, mas as contrações eram muito dolorosas. Eu
queria PN, mas as dores estavam cada vez mais terríveis. E, infelizmente, o
plantão da médica Halana finalizou às 8h, e assumiu a médica Suzana. Meu TP
estava a todo vapor, cada contração era um sofrimento só, saia líquido,
fluidos, sangue e lembro que eu tinha nojo de mim... a enfermeira Rosana dizia
que era normal, que eu não precisava ter nojo, que eu não precisava ter
vergonha caso fizesse cocô, isso eu lembro que morria de vergonha, mas não
cheguei a fazer. Usei a bola, sentava no vaso sanitário para fazer xixi, mas
não saía nada, usei o chuveiro, a banheira e nada das contrações aliviarem.
Fiquei decepcionada com a banheira, pois eu lera que ali tudo ficava mais
ameno... e quando entrei, nada. E a médica sentada no canto só dizia “se
precisar de alguma coisa, estou aqui”. Quê? Estava nada... só o corpo dela
estava ali, a cabeça estava em outro lugar. Eu precisava de alguém para me
orientar, mas não tinha esse alguém ali. O Tiago estava comigo o tempo todo, me
apoiando, me massageando, mas não sabia o suficiente... enfim, ele não era uma
doula. Vários toques foram feitos pela médica Suzana, durante as contrações, e
eu reclamava muuuuito, e o último deu 9 cm... ela rompeu a bolsa novamente para
ajudar a Lívia a descer... Estávamos quase lá, só que a partolândia é tão
poderosa que me rendi a ela. A médica ofereceu analgesia, aceitei de imediato,
ela fora chamar o anestesista que demoraria não mais que 20 minutos. Só que
esses minutos duraram uma eternidade, quando ela voltou com ele, eu apelei para
a cesariana. E o que eu ouvi diante dessa súplica?
“Tem certeza de que você quer a
cesárea?” Ãhhhhhh?????? Certeza? Eu? Claro que não! Perguntei para o Tiago o
que ele achava, em meio a contrações insuportáveis, ele concordou comigo. Ele
sim tinha certeza do que estava fazendo ali: me apoiando em tudo, afinal, ele
não queria me ver sofrer, queria o melhor para mim. E partimos para o centro
cirúrgico. Tirei brincos, corrente, anel, etc (coisa chata para fazer antes da
cirurgia), fui gemendo no elevador e chegamos na sala fria, branca e iluminada.
A anestesia nas costas, sem poder me
mexer, e logo me deitaram na cama, organizaram tudo e uns 15 minutos depois, no
máximo, a Lívia nasceu. Nasceu? Eu perguntei. A médica disse sim. Mostrou-me a
Lívia do alto e naquele instante meu mundo se transformou. Caí em lágrimas de
intensa emoção. E sempre que me lembro desse momento, eu me emociono. Em
seguida, colocaram-na no meu rosto por uns 5 minutos (acho que é muito tempo),
Tiago fotografou e levaram-na de mim. Tiago foi com a Lívia para acompanhar os
procedimentos, o banho, etc. E eu? Fiquei ali sentindo minhas pernas serem
manipuladas, a mesa balançar. Depois de um tempo, o Tiago voltou com a Lívia no
colo, com roupa vermelha, minúscula. Os olhos dele brilhavam... a cena era
linda. Os dois se completavam. Fui levada para a sala de recuperação. Ficamos
os três lá por muito tempo. O tempo para minhas pernas voltarem a sentir
algo... A Lívia nasceu 10h48min. Lembro que fui amamentá-la apenas às 12h30min.
Por que tanta demora pra sair daqui? Eu perguntava cada vez que a enfermeira
aparecia... eram as pernas... e na penúltima vez que ela apareceu, me perguntou
porque a Lívia estava com o Tiago ainda. Eu que não sabia. Então, ela colocou a
Lívia sobre mim, e a minha filha mamou pela primeira vez. Quão feliz eu fiquei!
O instinto da criança é incrível, o corpo feminino também. Meus seios tinham o
alimento perfeito para minha filha desde a gravidez!
E assim foi... a Lívia nasceu em um sábado
e ficamos na maternidade até segunda de manhã. Muitos medicamentos, dores,
dificuldade para rir, tossir, fazer xixi (sim... a primeira vez que fui fazer
xixi, mesmo com a bexiga estourando, não saiu nada, e as enfermeiras diziam que
era muito normal e mandavam eu tomar mais água), e muuuuitos gases. Mas eu
estava no céu, feliz com meu bebê e meu marido. Ô ingenuidade.
O tempo passou e eu continuei me
informando, me atualizando no mundo da maternidade, da gravidez, dos bebês.
Claro que a prática no dia-a-dia é o que nos mostra o quão somos capazes de nos
adaptar com um novo ser em casa e amá-lo incondicionalmente, mesmo sem dormir
direito, comer quando dá... tudo fica pra depois, pois o bebê é prioridade.
A Lívia continua crescendo lindamente,
hoje já está com 2 anos e 2 meses, mas eu percebi que algo tinha saído errado
no nascimento dela. Eu não conseguia aceitar que o PN não dera certo. E minha
história passava mil vezes pela minha cabeça, a culpa e a não aceitação da
minha cesárea só aumentava. Eu queria ser mãe de novo, mas a segunda vez seria
diferente, eu iria parir, fazer de tudo para isso acontecer.
Numa sexta-feira do fim do ano de 2013,
matei o dia de academia e fui ao cinema sozinha e, felizmente, assisti o
documentário “O Renascimento do Parto”. Chorei do começo ao fim e saí ainda
mais certa de que minha cesárea não era para ter acontecido e que o segundo
bebê que viesse a ter sairia de mim da forma mais natural possível.
E assim foi. Engravidei em novembro de
2013, continuei em busca do meu empoderamento, inclusive, contratei a Cris
(Doula).
Em junho de 2014, fiz um ultra-som em que
foi diagnosticada placenta baixa. Já no grupo de doulandas da Cris perguntei o
que era isso, na consulta com ela também perguntei e me explicaram e,
dependendo da situação, isso pode impossibilitar um PN. No entanto, na consulta
com minha obstetra (GO), perguntei o que era, mas a única coisa que ela disse
várias vezes foi “fica tranqüila, tua placenta vai subir”. Ok... Mas o que era
placenta baixa? Naquela consulta decidi que meu lugar não era ali. Ao chegar em
casa, já agendei minha primeira consulta com o Dr. Fernando Pupin e, com 30
semanas da segunda gestação, ele me atendeu muito carinhosamente e disse que
seria uma honra para ele poder me acompanhar se fosse da minha vontade e da
vontade do meu marido. Foi tarde, mas foi em tempo que mudei de GO. Voltei no
Dr. Fernando com 34 e 36 semanas, e as notícias sempre boas: Clarice e eu
saudáveis. Na primeira consulta com ele, é importante dizer, que a Clarice
estava sentada, eu sentia muitos incômodos com suas mexidas. O médico, ao
senti-la na minha barriga, manipulou-a tão facilmente que a rapariga virou e
encaixou! Fiquei surpresa com a facilidade. Mas ele teve a impressão de que ela
estava virando novamente. Ele não manipulou mais naquela consulta porque senti
um pouco de desconforto, mas fui embora feliz!
Como até a 34ª semana continuei
incomodada, pensei que ela ainda estivesse sentada, mas ao retornar com o Dr.
Fernando, ele me examinou, fez um ultra-som e constatou que ela ainda estava
encaixada. Então foi só alegria! Entre a 30ª e a 34ª semanas, a Cris sempre me
tranqüilizada dizendo que ainda havia tempo para a Clarice virar, só que minha
ansiedade era tamanha que rezava e conversava todos os dias para a menina
virar... e ela já estava virada! Kkk Só que eu já estava determinada: mesmo que
a Clarice se mantivesse pélvica, meu parto seria pélvico!
Com 35 semanas e 6 dias, comecei a sentir
os pródomos. Mas pra mim eram as contrações naturais de Braxton Hicks, as de
treinamento. E como eu tinha consulta com Dr. Fernando no dia seguinte, fiquei
tranqüila. Com 36 semanas, dia 24 de julho, fui consultar com ele. Falei que as
contrações estavam presentes desde o dia anterior. Ele, então, pediu permissão,
fez o toque e constatou que eu estava com 1cm de dilatação e colo apagando.
Fiquei preocupada, pois ele havia me dito em consultas anteriores que era para
eu me preparar apenas a partir de 37 semanas e ainda faltava uma para chegar.
Mas ele me tranqüilizou e orientou-me a arrumar a malinha da Clarice (eu não
havia lavado nada ainda). Mesmo assim, saí do consultório feliz. O importante é
que minha segunda filha viria de PN e tudo estava se encaminhando para isso.
Antes de começar a contar do TP, quero
deixar registrado que essa gestação, apesar de planejada e amada, foi bem
difícil. É que passamos por muitas situações de estresse e ansiedade com troca
de apartamento. Vendemos o que morávamos, compramos outro, mas até entrar no
novo, foi uma novela, chegamos até morar um mês de aluguel. Mudamos dia 19 de julho
para o novo lar, passei a semana inteira acompanhando obras no apartamento
(pintura, colocação de piso, instalação de móveis, faxinas intermináveis e
improdutivas), e a Clarice nasceu dia 28 de julho. Eu só rezava a Deus e
conversava com ela, pedindo que ela esperasse o fim das maiores arrumações no
apartamento. E ela esperou.
No mesmo dia 24, recebi a visita dos meus
sogros e da minha concunhada em meio à bagunça do apartamento. Dia 26, veio meu
cunhado e todos voltaram para sua cidade dia 27 de tarde, por volta das 16h. E
desde o dia 23, a cada dia, as contrações estavam cada vez mais intensas, mas
eu me tranqüilizava e rezava em silêncio. Após a ida das visitas, Tiago, Lívia
e eu fomos passear no shopping: comemos bolo, a pedido da Lívia, trocamos o presente
de dia dos pais do Tiago, passeamos e fizemos compras. Quase chegando em casa,
no semáforo a uma quadra de casa, tive uma contração forte, às 19h32min, e
falei para o Tiago que era hora de começar a monitorá-las. Ao chegar em casa,
entrei em contato com a Cris, falei da situação, e ela disse para eu monitorar
as contrações (intervalos e duração) por uma hora e retornar a ela. Cris
perguntou qual a intensidade da dor de 1 a 10, eu pensei, disse 7 achando um
exagero. Mas estavam bem suportáveis, mas com intervalos menores entre elas.
Uma hora e meia depois falei com a Cris, mandei a foto das anotações das
contrações (não consegui usar o aplicativo que baixei no celular), e ela disse
pra eu ir pra maternidade. Eu não queria ir. Eu, então, chorava de preocupação
com a Lívia. Estava tarde, era domingo, eu queria a Lívia perto de mim. Como eu
iria pra maternidade? E ela? Já estava tudo acertado, inclusive no plano de
parto, que Tiago e Lívia ficariam comigo na maternidade, mas como esse momento
parecia se aproximar, a aflição se apoderava de mim. Colocamos a Lívia para
dormir e fomos dormir. Deitada as contrações eram insuportáveis e eu voltava a
chorar. Pela 1h da manhã, chorando, levantei e disse para o Tiago que não dava
mais para ficar deitada, a dor era muito forte e decidi arrumar a mala da
Clarice. Eu havia lavado as roupinhas no dia anterior e algumas coisas ainda
estavam secando no varal. Abri o computador, peguei a lista e comecei a colocar
as coisas na bolsa. Não eram (e não são) muitas e coloquei quase tudo. As
contrações iam e vinham e, a cada uma, eu me abaixava chorando. Arrumei tudo,
as minhas coisas, as da Clarice e pedi para o Tiago arrumar a Lívia e as coisas
dela. Lembro que a vi dormindo lindamente com a roupa que o Tiago tinha
colocado nela para sairmos. Pedi para o Tiago falar com a Cris de novo, que já
estava a postos, e combinaram de a pegarmos e irmos pro Ilha. Antes das 2h,
saímos, pegamos a Cris e fomos para a maternidade. As contrações dentro do
carro eram intensas. Eu gemia baixinho, eram dores suportáveis e também não
queria assustar a Lívia. Depois a Cris relatou no grupo de doulandas que a
Lívia acordou e, a cada contração que eu tinha, ela respirava no mesmo ritmo
que eu gemia de dor. Realmente um TP em família.
Chegando à maternidade, a Cris desceu
comigo, enquanto o Tiago foi estacionar o carro. Para minha surpresa, quem
estava de plantão? A mesma médica que fez minha cesárea. Voltei a chorar. Cris
perguntou se eu estava bem e se eu queria a plantonista. Eu disse que estava preocupada
e que era para chamar o Dr. Fernando. Tiago ficou envolvido com a Lívia,
enquanto a Cris e eu entramos no consultório para que a médica me avaliasse a
pedido do Dr. Fernando (ele e a Cris estavam em contato pelo whatsapp). No
consultório, respondi as perguntas padrões, em meio a contrações. A médica
sugeriu de eu me vestir para fazer o exame de toque, mas eu quis fazer xixi
primeiro. Incrivelmente as contrações eram suportáveis, eu chorava mesmo de
preocupação com a Lívia. Eu não queria estar na maternidade, queria estar em
casa. Fiz xixi, coloquei a camisola, deitei na cadeira de exames com
dificuldade, e a médica veio fazer o toque. Pediu pra eu relaxar e fez o toque.
Não sei se relaxei, mas não senti dor. E a surpresa: ela disse que eu estava com
6-7cm de dilatação. Já fiquei p... da cara. Ou 6 ou 7! A bronca com ela
continuava. Voltei pra recepção enquanto o Tiago fazia minha internação, e o
Dr. Fernando apareceu com uma carinha de cansado! Quando o vi, me tranqüilizei.
Fomos para a sala de parto. Lá chegando, a Cris me ajudou a me arrumar. Eu não
sabia o que fazer, que coisa louca. Era contração atrás de contração, mas tudo
controlável, eu estava civilizada. Cris atenciosa e carinhosa, sempre ao meu
lado, oferecendo os recursos que a sala tinha (chuveiro, banheira, cama). A
enfermeira colocou o antibiótico em mim, e eu quis ir para o chuveiro, pois a
água quente aliviava, lembrei do último banho que tomei em casa que foi tão
relaxante. E, de repente, numa contração, a bolsa rompeu e doeu. Vi o sangue
escorrendo pelo ralo. Ficamos ali um tempo. Eu quis sair. Com a bolsa rota, as
dores aumentaram um pouco, mas eu me sentia forte e só pensava que tudo aquilo
ia passar. Lembro-me de que o Tiago e a Lívia iam e vinham toda hora, eu
conversava com a Lívia, ela dizia que eu estava dodói, eu explicava a ela o que
eu sentia, mas sempre dizendo que eu estava bem. Eu não lembro com exatidão das
coisas que aconteciam, estava preocupada, com sentimentos estranhos, acho que
era medo de não parir, mas estava feliz que a Lívia estava ali com o Tiago. A
Cris sugeriu a banheira, eu aceitei com a condição de que ela me ajudasse a
ficar numa posição confortável. Entrei me ajeitei e as contrações pioraram
tanto... Acho que nesse momento entrei também na partolândia. Era muuuuita dor.
O Dr. Fernando estava lá também. A cada contração eu dizia: “Cris, vem outra,
me ajuda!” Ela dizia calmamente que a cada contração minha filha estava mais
perto. Doía taaanto. Eu só pensava que aquilo ia passar e pedia a Deus que me
desse força. Mas a partolândia é loucura, a gente pira e sai de si mesma.
Depois de muitas contrações, ver meu sangue deixando a água rosa na banheira,
sentir que meus ossos da região genital iam quebrar, gemer de dor, ver minha
filha ali com Tiago e pedir para ele tirá-la dali, eu temia não conseguir
parir. A Cris percebeu isso. Ela disse, então, para eu esquecer o parto da
Lívia, que esse era outro momento, que as dores eram intensas sim, mas que eu
ia conseguir, que era para eu acreditar no meu corpo, em mim. Eu não dizia que
não ia conseguir, eu dizia que tinha medo. Nesse TP, eu conheci a vontade de
empurrar. Eu não sabia o que era isso, no TP da Lívia eu não cheguei nessa
fase. A vontade é incontrolável, assim como urrar também era. Eu não gemia, eu
urrava. Em certo momento, a Cris e o Dr. Fernando sugeriram eu ficar de quatro
apoios na banheira para ficar mais confortável e conseguir descansar entre as
contrações. Foi uma luta eu trocar de posição. Tudo doía, eu estava exausta.
Quando, por fim, me arrumei, as dores pioraram e implorei analgesia para o Dr.
Fernando. Ele, calmamente, disse que não daria para fazer, que talvez não
pegasse na fase que eu estava. Implorei de novo, e ele, determinado, disse um
não categórico. Depois desse não necessário, seguro, eu me resignei, a vontade
de empurrar me dominou, empurrei, urrei, e a cabeça da Clarice saiu. Ui, como
doeu! E a cabeça ficou ali. Eu reclamei que estava doendo, perguntei o que
fazer, e a Cris disse que era para esperar a próxima contração. Que horror, eu
pensava, parecia que ia rasgar meu corpo. Na contração seguinte, eu não senti
dor, não me lembro de sentir algo, lembro que empurrei e urrei com toda minha
força, e a Clarice saiu junto com um grande alívio que se estabeleceu em todo
meu corpo. Nessa hora de expulsão, o Tiago estava na minha frente com a Lívia
no colo, a vi chorar quando gritei descontroladamente. Ela, chorando, escondeu o rostinho no pescoço do
Tiago. Depois que a Clarice nasceu, eu disse para a Lívia que não precisava
chorar porque a mamãe estava bem e que a Clarice havia saído da minha barriga.
O Dr. Fernando colocou a Clarice no meu
colo, o Tiago e a Lívia sentaram-se atrás de mim, a Cris ali junto cuidando de
mim, e após o fim da pulsação, Tiago cortou cordão umbilical. O sangue espirrou
no meu rosto. A Clarice era minúscula e estava toda branquinha do vérnix. Eu
estava mergulhada na banheira de líquido rosa e quente. Minha família estava
ali comigo. As pessoas que EU escolhi estavam comigo no momento de vitória
conquistada! Eu só dizia: “eu consegui”! Nem eu acreditava! Foi lindo, intenso,
maravilhoso!
A Clarice foi examinada ali no quarto e
teve que curtir a UTI por algumas horas por ter nascido prematurinha e com a
respiração acelerada. Mas fiquei com ela um tempinho antes de ela partir. A
Lívia estava ali ao meu lado e disse que estavam colocando fralda na Clarice.
Depois levaram minha RN, e eu fui de cadeira de rodas para o quarto. A exaustão
era tanta que eu não tinha forças para andar. Acho que foi a primeira voltinha
de cadeira de rodas que dei. Nós três fomos para o quarto, nos organizamos para
dormir, Cris veio se despedir, me deu os parabéns e disse que entrava em
contato comigo no dia seguinte. Isso era umas 4h eu acho. Vi meus dois amores
dormirem no sofá de acompanhantes, e eu não conseguia pregar o olho, estava
tentando acreditar em tudo o que eu tinha passado. Peguei no sono e quando
acordei, pelas 7h, era a Clarice chegando, minha miudinha voltara da UTI muito
bem e não precisava mais retornar para lá. Ela seria só nossa a partir daquele
momento. Claro que Lívia e Tiago acordaram e ficamos curtindo nossa pequenina.
A Lívia de pequena passou para grande! Como cresceu quando a Clarice nasceu! Eu
olhava para aquele rostinho enroladinho nos panos e só pensava que eu tinha
conseguido parir. Eu conquistei o meu VBAC! E o mais legal disso tudo é que eu
o conquistei da maneira que eu tanto queria: com minha doula, meu médico e,
principalmente, com minha filha e meu marido presentes! Fui respeitada em todos
os momentos. Apesar do medo e da preocupação, meu corpo mostrou que é capaz de
parir sem intervenções medicamentosas. Eu pari naturalmente minha segunda filha
na água. Não só eu, mas minha família teve um VBAC. Superei o trauma e a culpa
da cesárea desnecessária que tive há dois anos. Eu pari! Sim, eu pari!
Doeu? Sim. Mas não há um “mas” se quer que
me fez desistir. Eu só consegui porque estava com as pessoas certas e porque eu
desejei a cada dia esse VBAC.
Então, desejo que muitos e muitos partos
normais e naturais aconteçam, que muitos VBAC se concretizem e que muitas
cirurgias cesarianas necessárias ocorram para salvar vidas. Tudo isso em prol
da vida!
Agradeço a Deus pela oportunidade de ser
mãe de duas filhas amadas, de ser esposa de um marido tão maravilhoso e de ter
sido acompanhada pela Cris e pelo Dr. Fernando Pupin para a realização do meu
sonho!
PS.: não sou mais ou menos mãe porque
pari. Sinto-me mais mulher por tudo que passei. Não amo menos minha Lívia
porque ela veio ao mundo através de uma cirurgia. Orgulho-me de ter passado por
um TP antes da cesárea desnecessária e por ter tido coragem e determinação para
buscar e conquistar o VBAC. Dedico, portanto, esse VBAC à Lívia e ao meu
marido, pois eles foram a inspiração disso tudo.
Observação 1:
Chegamos ao Ilha Hospital e Maternidade por volta das 2h da madrugada do dia 28/07/2014, e a Clarice nasceu às 3h34min.
Observação 2:
Siglas:
PN: parto normal/natural
GO: ginecologista-obstetra
RN: recém-nascida
UTI: unidade de tratamento intensivo
VBAC: vaginal birth after cesarean
Observação 1:
Chegamos ao Ilha Hospital e Maternidade por volta das 2h da madrugada do dia 28/07/2014, e a Clarice nasceu às 3h34min.
Observação 2:
Siglas:
PN: parto normal/natural
GO: ginecologista-obstetra
RN: recém-nascida
UTI: unidade de tratamento intensivo
VBAC: vaginal birth after cesarean
Morgana!!! Mais um belo e incrível relato! A emoção é inevitável. Ao ler, a sensação é de que estamos vendo tudo acontecer! Suas palavras estão cheias de sentimentos bons e de uma vontade incrível de realizar seu VBAC. Que bom que deu tudo certo com a Cris e o Dr. Fernando. Uma dupla que só ouço falar bem. E parabéns por ter sido corajosa e forte para trazer ao mundo suas duas princesas! Mesmo cada uma tendo sido de um jeito diferente. Parabéns também ao papai, seu companheiro e amigo. Um beijo carinho pra essa família linda e que continuem os relatos!!!
ResponderExcluirLindo, emocionante! espero que um dia venha a ter meu parto normal após a cesarea desnecessaria! Bjos me vcs
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